25 de abril de 1974, o dia em que Portugal voltou a ser uma democracia, depois de 48 anos de ditadura. A Revolução dos Cravos foi um momento de viragem no país, não só a nível político, mas também social e cultural, uma vez que a liberdade conquistada trouxe novas possibilidades para os portugueses – de pensar, de criar, de escolher e, também, de viajar e de acolher. O país até então fechado ao exterior, deu lugar a um Portugal curioso, hospitaleiro e capaz de se mostrar ao mundo com orgulho e autenticidade.
Antes do 25 de Abril: o turismo durante a ditadura
Na teoria, o turismo em Portugal existia durante o Estado Novo, embora de uma forma profundamente condicionada pelo regime. O país apresentava-se ao exterior como um destino seguro e tradicional, num discurso alinhado com a propaganda nacionalista, promovendo a imagem de um povo simples e trabalhador, uma ideia que escondia a repressão, a pobreza e o atraso estrutural em que grande parte da população vivia.
Na realidade, a liberdade de circulação era uma ilusão. Os portugueses não podiam sair do país sem autorização prévia e a emigração era, muitas vezes, um ato de desespero ou de resistência. O regime mantinha um olhar vigilante sobre todos os cidadãos, portugueses ou estrangeiros, através da censura e da polícia política. O turismo era permitido, sim, mas sempre sob vigilância e frequentemente instrumentalizado para reforçar a ideia de um Portugal “orgulhosamente só”. Esta rigidez contrastava com as dinâmicas observadas noutros países europeus, onde o turismo começava a desenvolver-se, impulsionado pelo crescimento económico e pela mobilidade internacional.
Depois do 25 de Abril: a evolução do turismo pós-revolução
Após a Revolução dos Cravos, Portugal abriu-se ao mundo e abriu-se também a si próprio. A liberdade para viajar, até então limitada e vigiada, passou a ser um direito acessível a todos. No entanto, o processo de transformação não foi imediato.
A revolução trouxe instabilidade no curto prazo, o que inicialmente teve um efeito de retração no turismo internacional. Observou-se a diminuição das entradas de visitantes estrangeiros, sobretudo de países tradicionalmente emissores como o Reino Unido e a Alemanha, e das receitas associadas ao turismo, mas também a degradação do parque hoteleiro, a falta de investimento na qualificação dos trabalhadores do turismo e restrições às saídas de divisas que comprometeram o negócio das agências de viagens. Além disto, a tutela do turismo foi alterada diversas vezes durante o período de 1974 a 1976 até, neste último ano, ser criado o Ministério do Comércio e Turismo, em que se integra a Secretaria de Estado do Turismo.
Com a consolidação da democracia e a estabilização política e económica começaram a surgir políticas públicas que viam o turismo como um motor de desenvolvimento regional. Em 1982 foi revista a lei que criou os órgãos regionais de turismo (de 1956), dando origem à figura única das Regiões de Turismo, as quais passaram a organizar e a promover esta atividade de forma mais descentralizada, dando mais poder e espaço de participação aos municípios. A entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia (CEE), em 1986, foi também um ponto de viragem, possibilitando a entrada de investimentos para infraestruturas, a qualificação da oferta turística e a promoção internacional.
O turismo, neste novo contexto, deixou de ser um instrumento de propaganda para se tornar uma atividade económica, cultural e social com verdadeiro potencial de crescimento. As fronteiras físicas e simbólicas caíram e o país, que durante tanto tempo se fechara sobre si próprio, começou a receber visitantes de diferentes origens. Em simultâneo, motivados pela curiosidade e pelo acesso progressivo a meios de transporte e alojamentos mais acessíveis, os portugueses redescobriram o seu país, as suas gentes, paisagens e histórias.

Com o passar do tempo, o 25 de Abril deixou de ser apenas uma data comemorativa para se tornar um acontecimento cultural, experienciado por residentes e visitantes como uma oportunidade de conhecer a história viva de Portugal. A Revolução dos Cravos, pela sua força simbólica e pacífica, tornou-se parte do património imaterial de Portugal, e como tal, começou a atrair o interesse de quem visita o país. São vários os lugares e espaços museológicos dedicados à resistência, à ditadura e à revolução, que conservam a memória deste período da história de Portugal. Entre os mais emblemáticos encontram-se:
- o Quartel do Carmo, em Lisboa, local onde, a 25 de Abril de 1974, Marcello Caetano se refugiou, antes de se render ao Movimento das Forças Armadas, marcando o fim da ditadura em Portugal (visitas gratuitas até 10 de maio);
- o Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, também em Lisboa, instalado numa antiga prisão política, que contextualiza as lutas antifascistas e os caminhos para a liberdade;
- o Museu Nacional Resistência e Liberdade (Fortaleza de Peniche), em Peniche, que relembra o papel dos presos políticos durante esta fase sombria da história do país;
- e a Casa da Cidadania Salgueiro Maia, em Castelo de Vide, que presta homenagem a um dos rostos mais simbólicos da revolução.
Adicionalmente, todos os anos, em várias cidades e vilas portuguesas, o 25 de Abril celebra-se com concertos, exposições, feiras do livro, teatro de rua, debates, entre outros (ver programação para 2025 aqui).
Liberdade, mas a que custo? Os desafios (atuais e futuros) do Turismo
A liberdade conquistada no dia 25 de Abril abriu caminho para uma sociedade mais aberta e inclusiva, sendo que o turismo, enquanto expressão dessa liberdade — de circular, de conhecer e de partilhar —, é um dos resultados mais visíveis deste processo. No entanto, à medida que o setor se desenvolve e se massifica, surgem também novos desafios.
Nas últimas décadas, o crescimento exponencial do turismo em certas regiões e cidades criou preocupações sobre o impacto negativo do setor, nomeadamente no que respeita à gentrificação, à subida dos preços, à descaracterização urbana e à exclusão social. Torna-se premente equilibrar a liberdade de quem chega com a qualidade de vida de quem reside, uma vez que a liberdade de visitar não pode colidir com o direito à cidade por parte da comunidade local. Por outro lado, com as alterações climáticas e a crescente pressão sobre os recursos naturais é necessário promover um turismo mais sustentável, ecológico e consciente. Reduzir a pegada ecológica do setor, promover a utilização de transportes mais sustentáveis e proteger as paisagens e recursos naturais são hoje questões essenciais para o turismo, visto que a liberdade de viajar não pode significar a destruição dos destinos que se quer visitar.
Por último, não existe liberdade se o turismo continuar a ser um privilégio. É, como tal, importante garantir o acesso inclusivo ao lazer, à cultura e à mobilidade, seja para pessoas com deficiência, populações com baixos rendimentos ou comunidades historicamente marginalizadas. Se o 25 de Abril simboliza uma promessa de dignidade e igualdade, também o turismo deve refletir esses princípios.

Hoje, viajar para Portugal, ou em Portugal, é um exercício de memória, liberdade e descoberta. Cada rua, museu, paisagem ou celebração representa histórias de resistência, de conquista e de mudança e cada encontro com quem nos visita é uma oportunidade de partilha, não só do nosso património e recursos, mas também dos valores que nos definem como país – a democracia, a hospitalidade e acolhimento, a igualdade, a solidariedade e humanismo, o respeito pela natureza e a liberdade. Afinal, o turismo é muito mais do que atravessar fronteiras, o turismo é, também, uma forma de continuar Abril.