Quando a Música move o Turismo: a influência dos festivais e concertos no setor

Os bilhetes esgotam em poucas horas, a procura de voos dispara, a hotelaria vê as reservas e os preços subirem e os restaurantes perto dos recintos dos concertos tendem a encher, sobretudo nas horas que antecedem o espetáculo. Este é o fenómeno do turismo musical – um segmento crescente do turismo cultural, que envolve as deslocações motivadas por eventos musicais. O que antes era uma viagem para “ver um concerto” transformou-se num fenómeno global, onde festivais, concertos e digressões internacionais deixam de ser meros eventos culturais para se tornarem experiências imersivas que impulsionam o turismo, dinamizam as economias locais e colocam os destinos no radar de viajantes de todo o mundo.

Artistas como Ed Sheeran, Madonna, The Weeknd, Harry Styles, Coldplay, Taylor Swift e, mais recentemente, Bad Bunny, mostraram nos últimos anos que a música é efetivamente um motor de viagem, capaz de atrair multidões e transformar cidades em palcos vivos. Mas não é apenas a música que atrai estes públicos. Também a experiência envolvente – o ambiente, a gastronomia local e, claro, a possibilidade de combinar o evento com uma escapadinha cultural ou alguns dias de praia – assume um destaque relevante. Assim, mais do que entretenimento, o turismo musical representa uma poderosa alavanca económica e sociocultural para os destinos.

Mas qual é, afinal, o impacto deste fenómeno no turismo nacional?

Portugal está, cada vez mais, no radar dos grandes nomes da música internacional. O que há poucos anos era visto como uma paragem opcional em algumas digressões, hoje é um destino quase obrigatório para artistas e fãs. Com salas como o MEO Arena, o Coliseu dos Recreios, o Estádio da Luz e espaços ao ar livre como o Parque da Bela Vista, o nosso país acolhe regularmente grandes produções. Além disso, festivais como o Rock in Rio Lisboa, o NOS Alive, o Primavera Sound Porto, o Meo Kalorama, o Super Bock Super Rock ou o eletrizante Boom Festival tornaram-se paragens obrigatórias no calendário de milhares de turistas.

Apesar de ser impossível quantificar o valor gerado por estes, o impacto na economia é claramente visível. Em 2024, Portugal registou um número recorde de festivais de música, com um total de 2,5 milhões de espectadores, entre público nacional e internacional. Só o Boom Festival, que acontece em Idanha-a-Nova, atraiu cerca de 40 mil pessoas de mais de 150 países, muitos dos quais aproveitam para explorar o interior do país, uma zona normalmente fora dos circuitos turísticos tradicionais. Também o Turismo de Portugal destaca que os eventos musicais de grande escala geram aumentos significativos na taxa de ocupação hoteleira, especialmente nas regiões onde ocorrem.

O que torna Portugal tão atrativo neste segmento?

  • Localização privilegiada na Europa, uma vez que se encontra a poucas horas de voo de quase todas as capitais europeias – com voos diretos e económicos;
  • Clima ameno, o que é ideal para eventos ao ar livre, nomeadamente entre abril e outubro;
  • Custo acessível em comparação com outros destinos europeus – os preços dos bilhetes, alojamento, alimentação e transportes são, em muitos casos, mais baixos do que em países como França, Reino Unido ou Alemanha, o que torna a experiência mais apelativa;
  • Cultura vibrante e acolhedora do país, o que transforma qualquer concerto numa celebração;
  • Aposta em práticas sustentáveis, como é o caso do Boom Festival, que é referência mundial em sustentabilidade ecológica e autossuficiência;
  • Apoio institucional e posicionamento estratégico, uma vez que, nos últimos anos, o turismo musical tem sido reconhecido como um segmento de valor.

Não é, portanto, de estranhar que, em abril deste ano, o Turismo de Portugal tenha lançado a campanha Portugal Music Festivals Headliners, especialmente dedicada aos diversos festivais de música que enchem os palcos de Portugal. Esta iniciativa visa promover os principais ativos turísticos nacionais – Natureza, Oceano, Sol, Património, Cultura, Sabores, Bem-estar e Diversidade –, através de um conceito visual e narrativo inspirado nos grandes festivais de música internacionais, destacando, assim, o país como um destino privilegiado para o turismo musical.

Dito isto, este segmento do turismo está longe de ser uma moda passageira, estando, na verdade, a consolidar-se como uma tendência estrutural no setor do turismo global, que continuará a moldar a forma como viajamos, consumimos cultura e nos conectamos com o mundo. À medida que os públicos procuram experiências mais autênticas, os eventos musicais transformam-se, cada vez mais, em motores de descoberta, inovação e sustentabilidade. Em Portugal, com o seu clima, hospitalidade e oferta cultural rica e diversificada, o futuro é promissor. Espera-se o crescimento de pacotes turísticos temáticos, que combinem concertos com experiências gastronómicas, visitas culturais e/ou roteiros personalizados, uma aposta crescente na tecnologia (experiências híbridas e/ou de realidade aumentada), a descentralização dos eventos para regiões menos exploradas e a valorização do património local como parte do espetáculo.

A música, afinal, continuará a ser uma linguagem universal, mas também um convite irresistível para fazer as malas, comprar um bilhete de avião e viver o mundo ao som de grandes emoções.

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